Tela do artista plástico moçambicano Antero Machado.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Causos de Minas V - Medico do interior.

 
A profissão médica por muito tempo, foi considerada por como um verdadeiro sacerdócio. Inclusive era frequente atribuir-se que os homens mais poderosos de uma cidade eram respectivamente o Prefeito, o Juiz, o Padre e o Médico.
O respeito e a imponência do trabalho médico eram reconhecidos e valorizados pela gente humilde, que venerava esses profissionais como a grande salvação do povo. As vantagens de se exercer a medicina no interior era que além de proporcionar uma qualidade de vida sem preço, longe de trânsito, poluição, falta de segurança, alguns pacientes insistiam em cobrir os médicos de “mimos”, especialmente aqueles que vinham das fazendas. 
Agrados como queijos, ovos caipira, doces caseiros, frango caipira, leitoa, enfim, a atitude típica do interior de pessoas que adoram expressar a satisfação de ser bem tratado, e esse carinho também não tinha preço.
Porém, os anos passaram e essa realidade mudou. Hoje o profissional médico perdeu de uma certa forma esse “glamour”, e cada dia que passa o médico representa um simples e comum agente com a missão de lutar por salvar a vida de seus pacientes. É comum ver nos pequenos e médios centros hospitalares (quando existem) que sofrem com os escassos recursos e com equipamentos sucateados, filas de pacientes desesperados e furiosos em busca de uma consulta simples, que pudesse lhe atribuir um medicamento para curar sua doença. 
Nesse ambiente cheio de problemas, inevitavelmente a culpa recai no médico, que as vezes tem como única alternativa colocar o doente em uma ambulância, geralmente “doada” por um politico local e tentar a sorte de um internamento nos hospitais dos grandes centros, sempre sobrecarregados. Com toda tecnologia e o avanço extraordinário da medicina, os profissionais hoje formados não se sujeitam a ir para os centros pequenos onde podem oferecer no máximo um atendimento ambulatorial. É exigir demais destes jovens.
Poucos “sacerdotes”, ainda existentes, se arriscam a essa vida de abnegação e frustrações, sabendo que o pouco que ele pode fazer ainda é muito para esse povo humilde e desassistido das nossas roças.
Conto aqui um causo passado com um desses abnegados militantes da saúde.
Um velho médico mineiro, que sempre trabalhara no meio rural, achou que era chegada a hora de se aposentar, depois de ter exercido a profissão mais de 50 anos ininterruptos. 
Já não tinha em conta quantos partos fizera, quantas curas de erisipela, coices de mula, membros fraturados, barriga d’agua, desnutrição, malaria e outras mazelas desse Brazilzão.
Por fim, encontrou um jovem médico para o seu lugar, moço também do interior, e sugeriu ao novo diplomado que o acompanhasse nas visitas domiciliares, para que as pessoas se habituassem a ele gradativamente. Interior tinha disso, né?  
Afinal, ele tinha feito o parto de quase todo mundo da cidadezinha, conhecia a todos e o povo se acostumara com o medico e só se tratava com ele, assim como tambem só se confessava com o pároco local.
Na primeira casa que foram, uma mulher queixou-se que lhe doía o estômago.
O velho médico deu uma olhadinha geral e já diagnosticou:
- Sabe Dona Frozinha, a causa provável é que você abusou das frutas frescas... Por que não diminui a quantidade que você esta comendo?
Quando saíram da casa, o jovem médico disse:
- Doutor, eu estou admirado, o senhor nem sequer examinou aquela mulher... Como conseguiu chegar ao diagnóstico assim tão rápido?
- Ora, nem valia a pena examiná-la... Você notou que eu deixei cair o estetoscópio no chão? Quando me abaixei para apanhá-lo, notei que havia, no balde de lixo, meia dúzia de cascas de mangas, bergamotas e ameixas verdes impróprias para o consumo. É bem provável que isso ocasionasse as dores estomacais.  Na próxima visita você se encarrega do exame!
- Humm, que esperteza..., pensou o aprendiz.
Na casa seguinte, eles passam vários minutos a falar com uma mulher ainda jovem. Ela queixava-se de grande fadiga.
-  Dotô, eu me sinto completamente sem forças...
O medico antigo pede então que o jovem medico a examine.
Ele aparentemente ainda meio atrapalhado, a examina e atabalhoado, também deixa cair o seu estetoscópio.
Ao terminar o exame o jovem doutor disse para a moçoila:
- Você provavelmente está dando muito de si para a igreja... Se reduzir o seu empenho e a frequencia dessa atividade, certamente recuperará sua energia.
Assim que deixaram aquela casa, o velho doutor que se mantivera calado perguntou:
- O seu diagnóstico me surpreendeu... Como é que chegou à conclusão
que aquela mulher se dava de corpo e alma aos trabalhos religiosos e que isso lhe dava fadiga?
- Eu apliquei a mesma técnica que o senhor me indicou, propositalmente deixei cair o meu estetoscópio e, quando me abaixei para apanhá-lo, eu vi o padre escondidinho debaixo da cama...
*
È, esse moço leva jeito pra coisa!
Como que um jovem médico formado na melhores escolas de medicina, doutores da mais moderna ciencia conseguiriam conhecimento e vivencia para atuar na roça?
Não existe Tratado de Medicina que lhes ensine abnegação e altruismo.
É uma decisão de poucos, pessoas especiais como o jovem medico desse"causo"!

Caso recebido por e-mail sem autoria 


14 comentários:

  1. Kkkkkk...adorei!!! Esse menino tem futuro...
    Boa semana meu amigo...abraços!!

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  2. Majju,

    Não é que tem mesmo?
    Essas coisas não se aprendem em livros...é preciso sensibilidade pra cuidar deste povo, sempre cheio de peculiaridades.

    bjo

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  3. Dom, preparo, olho vivo e uma pitadinha de malícia : deve ser a fórmula pra curar qualquer doença.

    ;)

    Um beijo.

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  4. kkkk, dar muito de si é mesmo cansativo, rs
    :)

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  5. Espinhela caída, cangaço doido e outros só após 50 anos de roça para saber o que é! Mas o doutorzinho vai apender rápido.
    bjs
    Jussara

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  6. Luna,

    Atenção, chamar o paciente pelo nome, escutar e contar um causo, as vezes até cura.
    Se não curar, pelo menos não foi “curpa do dotô”, foi Deus que quis.

    bjoca

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  7. Kinha,

    Essa dedicação fervorosa, dadivosa às "causas da igreja" cansa mesmo....as vezes a carola fica até de barriga inchada.....rsrs

    bjo

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  8. Jussara,

    se ele continuar aprendendo com o velho medico da roça, em pouco tempo ele vai saber o que é Escalpo Sarnento, Indigestão, Lombrigas, Malária, Sangue Sujo, amarelão, Pele Ressecada, berne, Piolho, Psoríase, Verrugas, Sarna, Sífilis, Unhas Fracas coisa que doutor antigo da capital nunca viu....rs

    bjo

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  9. Bem, eu ia fazer uma pergunta pessoal, mas não vou, rs
    Mas uma insinuação pode né...
    Quando o senhor tem vaga para uma consulta, por favor, haha!
    Já recebeu bode de presente?!
    rs!

    Bjsss!

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  10. Rapha,

    KKKKKKKKKK
    Ganhou um bode e não sabe o que fazer com ele?....rsrsrs
    A consulta é de gratis......

    bjo

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  11. que hilário........esperto esse doutor....gostei do causo.O que será que esse médico descobriria aí na sua casa???rsrsrsr....abraços para vc.

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  12. ahahahaha muita dedicação à igreja hahaha, o padre tb é mto dedicado com as fiéis hahaha.

    Lufe, minha tia sempre foi médica em cidade pequena. E ela contava que o pessoal, mtas vezes sem dinheiro, pagava com o "que podia": doces, frutas, até frango assado rs. e faziam questão de pagar, de retribuir. ela me dizia que era algo comovente, por isso ela nunca abandonou a medicina feita nas pequenas cidades, vilarejos...as pessoas eram sua riqueza.

    (amigo, obrigado ai pela visita ao blog, vc não se preocupe, vai lá qdo der, viu? é esse blogger, que anda encachaçado demais ultimamente rs.) abraços!

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  13. Eva,

    conhecendo esses doutores, mandei fazer as camas aqui de casa com gavetão em baixo. Aqui, o Doutô tem que usar outros artificios.....rsrsrs

    bjo

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  14. Alexandre,

    Eu tive um tio, medico em Pedro Leopoldo,cidade a 50 Km de Beagá vizinho do Chico Xavier quando ele morou por lá. As vezes ele chegava em minha casa de guarda pó, pois vinha de jardineira em estrada de terra. A gente ia muito a casa desse tio. Casa de mesa farta, grande conceito social, mas de grana curta. Na época, quase todos os jovens da cidade haviam nascido pelas suas mãos. Hoje não tem isso mais. Mudaram a medicina e os homens.

    abraços

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