Tela do artista plástico moçambicano Antero Machado.

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

TUAREG

Resolvi postar esta entrevista pela simplicidade das verdades aqui contidas.
Entrevista realizada por Victor M Amela e Moussa Ag Assarid em 20/10 /07

- Não sei a minha idade. Nasci no deserto do Saara sem documentos. Nasci em um acampamento de nômades Tuareg entre Timbuctu e Gao, ao norte de Mali. Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas do meu pai. Hoje estudo Gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo os pastores Tuareg. Sou muçulmano, sem fanatismo.
- Que turbante, tão formoso.
- É uma fina tela de algodão: permite tapar o rosto no deserto, e continuar a ver e respirar através dele.
- É e um azul belíssimo!
- Nós os Tuaregs, somos chamados de homens azuis por isso; o tecido solta alguma tinta e nossa pele adquire tons azulados.
- Como conseguem este tom de anil?
- Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os Tuaregs o azul é a cor do mundo.
- Por quê?
- É a cor dominante. É a cor do céu, do teto da nossa casa.
- Quem são os Tuaregs?
- Tuareg significa “abandonados“, por que somos um velho povo nômade do deserto, solitários e orgulhosos: “Senhores do deserto“, é como nos chamam. Nossa etnia é a amasigh (bereber), e o nosso alfabeto, o tifinagh.
- Quantos são?
- Uns três milhões, e a maioria permanece nômade. Mas a população diminuiu. “É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu“: Apregoava um sábio. Eu luto para preservar este povo.
- A que se dedicam?
- Pastoreamos rebanhos de cabras, camelos, cordeiros, vacas e asnos num reino de imensidão e silêncio.
- O deserto é realmente tão silencioso?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho.
- Quais recordações de sua infância você conserva com mais nitidez?
- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos onde há água e pasto… Assim fizeram meu bisavô, meu avô e meu pai e eu. Não havia outra coisa no mundo além disso.
E eu era muito feliz com isso.
- De fato! Não parece muito estimulante…
- Mas é muito! Aos 7 anos já te deixam afastar-se do acampamento para que aprendas coisas importantes: farejar o ar, escutar, apurar a vista, e as estrelas…
E a deixar-se levar pelo camelo, se você se perder. Ele e levará onde há água.
- Saber isso é valioso, sem dúvida…
- Ali tudo é simples e profundo. Existem muito poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor!
- Então esse mundo e aquele são muito diferentes?
- Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali ninguém sonha com chegar a ser, por que cada um já o é.
- O que mais o chocou em sua primeira viagem á Europa?
- Ver as pessoas correndo pelo aeroporto. No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Me assustei! É claro!
- Eles iam apenas buscar suas malas…
- Sim! Era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Me perguntei: por que esta falta de respeito para com a mulher? Depois no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água correndo e senti vontade de chorar…
Que abundância! Que desperdício! Não?
Todos os dias da minha vida consistiam-se em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá, continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa…
- Tanto assim?
- Sim! No começo dos anos 90 houve uma grande seca. Morreram animais e nós também adoecemos. Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Me contava histórias e ensinou-me a conta-las muito bem.
Ela me ensinou a ser eu mesmo.
- O que sucedeu com a sua família?
- Convenci meu pai que me deixasse ir á escola. Quase todo dia caminhava 15 km. Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer, quando eu passava em frente á sua casa.
Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe.
- De onde surgiu este desejo de estudar?
- Uns dois anos antes havia passado pelo nosso acampamento o Rally Paris- Dakar, e uma jornalista havia deixado cair um livro da sua mochila. Eu o apanhei e o entreguei. Ela me deu o mesmo de presente. Era um exemplar do pequeno Príncipe e eu me prometi que um dia conseguiria lê-lo.
- E conseguiu?
- Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França.
- Um Tuareg na Universidade!
- Ah! O que mais sinto falta aqui é o leite de camela… E o calor da fogueira, e de andar com os pés descalços na areia quente. Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente. Aqui á noite, você olha para a TV.
- Sim! E o que você acha pior aqui?
- Vocês tem tudo, mas não acham suficiente. Vocês se queixam. Na França passam a vida reclamando! Aprisionam-se pelo resto da vida á uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente… No deserto não há congestionamentos e você sabe por quê? Por que lá ninguém quer ultrapassar ninguém!
- Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante.
- Todo dia, duas horas antes do pôr-do-sol: a temperatura abaixa, mas ainda não chegou o frio, e os homens e os animais, lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor-de-rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
- Fascinante, na verdade…
- É um momento mágico. Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver. Sentamo-nos em silêncio a ouvir a ebulição… A calma invade todos nós e o nosso coração bate no ritmo da fervura…
- Que paz!
- Aqui vocês têm relógio, lá nós temos tempo.
.

8 comentários:

  1. Que interessante esse post.
    Realmente a gente corre pelos desertos da existência. Uma vida árida, corremos pelas tempestades do mundo que nos obriga a fazer isso, aquilo e mais aquilo para se ter o mínimo à sobrevivência.

    Cada vez queremos mais, a cada dia temos novas necessidades. Parar e apreciar estrelas? Saber o quanto vale a água? Coisas complicadas demais para nós, seres "desenvolvidos, cultos".

    Ele vivia no deserto. A gente tem o deserto dentro da gente...

    Muito bom esse post!

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  2. Oi queridooooo
    Nossa é uma entrevista e tanto !
    Vou falar uma coisa, visito vários blogs e estou sentindo que muitos estão tocando nesse tema "mundo moderno, desvalorização humana, esse "deserto" como disse Alexandre em sua ótima colocação . A pergunta é ...será um apelo pessoal, um grito particular, será que gostamos de postar sobre esses valores, porque intimamente para nossas vidas estamos querendo também driblar esse deserto ...O blog é seu somos meros comentaristas que deixamos nossas opiniões, mas hoje meu comentario é uma pergunta para você :
    Voce acha que você está conseguindo manter todos esses valores de forma correta?

    Eu já respondo que eu não estou, por mais que eu seja consciente, isso tudo me atropela, de certa forma para a companhar o ritmo de hoje a pessoa já tem que ser um rápida, tem que abrir mão de certos sentimentos, certas contemplações e tal, os momentos humanos de ontem , hoje dividimos com maquinas e assim vai !
    NAo tenho nada contra a tecnologia , muito pelo contrario espero que evolua sempre, eu tenho contra nós mesmos que estamos sendo nos deixando levar pela pior parte !

    E sim , acho que isso foi um apelo rs!

    Veja só até bares virtuais eu frequento hahahaha.

    Beijos que falei demais rs, acho que me deram muito alcool nesse buteco rsrs !!
    Beijos

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  3. Alexandre,
    pelos outros posts, você deve perceber que estou preocupado com a perda da simplicidade na nossa forma de vida. Você vive em um pais que preserva estes valores apesar da alta tecnologia. Preserva os avalores e tradições.Você quer coisa mais bonita que as cerejeiras em epoca de floração. Se fosse aqui, mandavam podar, pois suja o chão!
    abraços

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  4. Ana,
    Acertou em cheio. Até a tres anos atras trabalhava 16 horas por dia, em função executiva e ainda dava aulas fora nos fins de semana. Pegava o avião no fim da tarde de sexta e voltava no domingo a noite.
    Nem reparava se havia chuva ou sol. O corpo gritou. Fui obrigado a dar uma parada e pensar. Pra que tanto stress? Você não consegue morar em mais de uma casa, andar em mais de um carro, almoçar mais de uma vez, e vai por aí. Parei geral.Trabalho 30 horas por semana.tenho mais tempo pra mim, minha familia e até para estar aqui com vocês.Minha renda caiu para 25% do que ganhava. Mudou alguma coisa? Mudou, para melhor. Diminui a competitividade, relativisei meus valores materiais e começei a priorisar as coisas mais simples da vida. As melhores.Inclusive a convivencia com outras pessoas. Meu mundo não permitia confiança e as relaçoes eram superficiais e sempre com um pé atras.
    Mas a minha fase de vida permitiu isso.Não no aspecto financeiro, mas de estagios a se alcanças. Meus objetivos mudaram.Tento lutar contra a maré.
    Quanto a bebida do Buteco, pode tomar a pinguinha sem susto, o alcool é na dose certa. Ele apenas serve para deixar as pessoas mais bem humoradas e aproveitarem esse papo de mesa de botequim.
    bjo

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  5. É sem dúvida uma entrevista interessante, mas cada no seu lugar, no deserto a vida é duma maneira, aqui é de outra maneira, se eu aqui à noite me pusesse a olhar as estrelas era logo atropelado.
    Gosto mais de viver aqui do que no deserto, porque tenho que ter sempre água por perto.

    Abraço,
    José.

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  6. José, é um prazer receber sua visita.
    Puxe um banquinho e sinta-se a vontade.
    Como dizemos por aqui, cada um no seu quadrado.
    Para nós urbanos, é dificil nos imaginarmos vivendo como um Tuareg, mas mesmo nas grandes cidades que vivemos, dá para se ter um pouco mais de tranqulidade, viver sem pisar tanto no acelerador.
    Apreciar a convivencia humana, com prazer.
    Um abraço, apareça sempre.

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  7. Nossa, que post lindo! Nos faz refletir muito....

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  8. Oieeee !!!
    Huuumm...que bom que mudou a tempo de poder curtir a vida um pouco !!!!
    De fazer amigos e de curtir pequenos detalhes né ?
    É um vencedor, pq é uma vida difícil de largar e principlamente de enxergar que precisa ser transformada !!
    Beijooo

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